domingo, 8 de maio de 2011

UMA PESSOA INCOMPLETA...

     Seguir o fluxo de movimento... é essa ideia que tenho na cabeça. Uma coisa que surgiu em mim por influencia do meu amigo e mestre Sebastião Simão Filho, que me fez enxergar de maneira mais ativa a necessidade de quebrarmos as nossas amarras, de nos superarmos a nós mesmos a cada momento: é que somos flechas, necessitadas de ultrapassar as cordas, e no vôo sublime, ser mais do que nós mesmos, pois em parte alguma podem nos deter.
     Hoje, minha querida amiga Poliana Dantas disse que eu sou uma pessoa incompleta, pois eu tenho as ideias, mas tenho igualmente uma tendência de desprezá-las, sinto uma incapacidade doentia de materializá-las. Acreditava que tudo isso era por causa do perfeccionismo estético que eu imaginava, a ponto de raciocinar a respeito de todo o processo criativo antes mesmo de qualquer coisa; uma maneira de fazer as coisas de maneira limpa. 
     Mas agora começo a compreender que o processo criativo é sujo, imprevisível  A criança, quando está trabalhando com tinta pela primeira vez, não pensa em como manusear o pincel com  o propósito de não manchar suas mãos. Ela as mela sem frescura. 
     Assim, nesse processo criativo, hei de ser que nem uma criança sem medo da mancha. Só de uma coisa tenho direito de ter medo: meu pudor.
     Com as palavras de Poliana, em outro momento poderia ficar cabisbaixo e me trancar no meu isolamento improdutivo no escuro e no falso aconchego do meu quarto. Mas não, suas palavras me serviram como uma provocação, e assim, da mesma maneira me isolei, mas um isolamento reflexivo, diferente do primeiro mencionado. Não a reflexão intelectual. Não. 
     Primeiramente, deixei meus instintos corporais agirem sobre mim: que ele me leve aonde desejar. Comecei a dançar rapidamente, os olhos fechados, uma dança suja, não refinada. Meus braços se jogavam, iam e vinha para onde ele quisesse ir. O importante era perder por completo o controle sobre si mesmo. Dançar no ritmo do vento. 
     Estava pronto para o ensaio, e por 4 horas, treinei sozinho em cima das partituras corporais que criei em 2 minutos... a criação deve ser despudorada, ilimitada, o refinamento é que é o problema. 
     Ensaiei o início da primeira elegia. Para cada nota da partitura, um fluxo de palavras, pronunciadas com uma só respiração. Ensaiei enfim os seguintes versos, tentando não analisá-los na temática literária:
     
      Quem, se eu gritasse, entre as legiões dos Anjos
      me ouviria? E mesmo que um deles me tomasse
      inesperadamente em seu coração, aniquilar-me-ia
      sua existência demasiado forte.

     Foi um bom progresso, acredito, mas ainda terei que refinar.
   A tradução do texto acima é de Dora Ferreira da Silva, publicada pela Editora Globo, das que eu encontrei, a melhor tradução, e a que melhor permite uma comunicação teatral pela maneira fluida como seus versos são expostos.
   

Um comentário:

  1. eita...pelo menos servi pra alguma coisa né?! só não imaginava que fosse pra provocar alguém, já que eu sou uma pessoa tão séria - sempre soube que minha sinceridade era meu lado mais cortante kkkkkkkkkkkk

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