sexta-feira, 29 de abril de 2011

OS LIVROS MAIS SIGNIFICATIVOS SÃO OS QUE MENOS SE PROCURA

     
As palavras devem soar como a linguagem do vento, de maneira insólita, que nos pegue desprevenidos.
     
     Há uns dois anos atrás, estava eu entre as inúmeras prateleiras da biblioteca da UNICAP procurando obras da dramaturgia alemã, especialmente Berthold Brecht, mas acabei não encontrando o que eu queria. Naquele dia, porém, descobri o imprevisto: um livro de poemas. Abri o livro, e foi assim que descobri as Elegias de Duíno, do poeta alemão Rainer Maria Rilke (1875-1926). 
     Naquele dia, eu li a primeira das dez elegias, e fui aos poucos me introduzindo naqueles versos brancos cheios do sentido da solidão e do abandono. Aos poucos, fui descobrindo em sua unidade fragmentada seus temas e subtemas. Um tema desenvolve o outro numa elegia, para ser exposto mais tarde em outro contexto. Vemos a visão do autor, em um sentido filosófico, se desenvolvendo com o tempo, ao mesmo tempo em que ele retoma as antigas, como se suas ideias estivessem em constante movimento, num constante vai e vem  (a obra foi escrita no decorrer de vários anos, de maneira igualmente fragmentada. Talvez seja por isso que a obra sempre nos apareça dessa maneira). 
     Furtarei-me por hora a desenvolver mais a sua estética. Aos poucos, irei refazendo a leitura de cada elegia, uma por uma, e analisando-as à meu modo.
     O que importa é que estou desenvolvendo um projeto que concerne o estudo desse poema, quer seja do sentido da interpretação literária de seus versos, da análise descritiva e analítica (embora, em meu atual estado de espírito, não esteja afeito a uma busca racionalizada, a uma preocupação com a análise intelectualizada das coisas), assim como sua absorção num âmbito outro, em busca da transcendência, e uma interpretação nesse sentido fará muito mais sentido para mim e para o projeto.
     Todas essas análises. nesses vários âmbitos possíveis, será feita com o tempo. Não as já tenho na cabeça, e minhas reflexões às vezes surgem no momento em que escrevo. Elas seguirão indo em frente, de acordo com o andamento e preparação do que é realmente o projeto, pois todos esses estudos é uma pequena parte dele. São pesados tijolos que se encontram no meio de uma ponte que tenho que atravessar. O que estará lá do outro lado será construído com os tijolos que eu conseguir carregar. Não tenho medo de suar a camisa, de dobrar os joelhos a fim de pular, de elevar minhas mãos para alcançar algo além de mim: meu próprio espectro transcendental.
     Aos poucos, vou construindo com esses tijolos um castelo de grossas paredes. Tal como uma espessa árvore, formarei uma casca grossa em torno de mim, mas ainda assim, meus galhos e minhas folhas se estenderão para o adiante com a ação incontrolável do vento, que. pleno dos espaços do mundo, desgasta-nos a face.       
         


quarta-feira, 27 de abril de 2011

O PROPÓSITO DESTE SÍTIO

     
Não tenhas medo do assédio, do que há de mais sujo, mais insinuante, mais visceral. Não tenhas medo de teus instintos, a ânsia de teus múltiplos espíritos e faces.      
     
     Eu, diante da necessidade quase fisiológica, que aos poucos me foi ressurgindo dentro da alma nos últimos meses, de elaborar um projeto meu, numa verdadeira busca pessoal, resolvi atirar-me aos ventos e às forças que regem a natureza. Em poucas palavras: quero dançar a dança do invisível, do irracional, em busca das palavras, dos gestos, de movimentos fluidos, não frouxos, porém, que me façam perscrutar esse obstáculo invisível que nos circunda no ar. 
     Estou em busca do vinho, da bebedeira. Vou sorver o sangue que cairá por cima de meu corpo à procura  da saciedade da alma. Cometerei todos os pecados ainda não cometidos, degustarei as mais frescas carnes, dançarei como a serpente do deserto, e como ela, destilarei o mais mortal dos venenos. 
     E este é o princípio do meu projeto. No próximo post explicarei-o melhor, e o motivo de tal título. Explicarei ainda a aplicação do verbo RESSURGIR no primeiro parágrafo. 
     A seguir, BACANAL, de Manuel Carneiro de Souza Bandeira. Tomo este poema por uma aula, um grito de guerra, uma ode à libertinagem e à ousadia. 
     
                 BACANAL

     Quero beber! Cantar asneiras
     No esto brutal das bebedeiras
     Que tudo emborca e faz em caco...
     Evoé Baco!


     Lá se me parte a alma levada
     No torvelim da mascarada,
     A gargalhar em douro assomo...
     Evoé Momo!


     Lacem-na toda, multicores,
     As serpentinas dos amores,
     Cobras de lívidos venenos...
     Evoé Vênus!


     Se perguntarem: Que mais queres,
     além de versos e mulheres?
     - Vinhos!... o vinho que é o meu fraco!...
     Evoé Baco!


     O alfange rútilo da lua,
     Por degolar a nuca nua
     Que me alucina e que não domo!...
     Evoé Momo!


     A Lira etérea, a grande Lira!...
     Por que eu extático desfira
     Em seu louvor versos obscenos,
     Evoé Vênus!
                 
                   1918
     Como ultimas preces: EVOÉ!